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...para além do arbusto

por Clementine Tangerina, em 12.03.05


Nem sempre aquilo que procuramos está em frente aos nossos olhos.
A procura pelo melhor local onde pousar arraiais com a trouxa do pic nic pode ser demorada. Mesmo que aparentemente o local escolhido esteja totalmente vazio, sem vizinhos para incomodar o sossego de domingo, para a reunião familiar. Há locais que por muito tranquilos que sejam, por muito que tenham boas condições para nos abrigarmos, (caso uma tempestade decida aparecer sem ser convidada ) não nos inspiram confiança e não nos deixa escolher aquele como porto de abrigo.
Sem motivo aparente decidimos que aquele não é mesmo o local perfeito para conviver e para estar. Vamos procurando, entre uma e outra árvore, entre um e outro arbusto, entre uma duna e outra e o domingo vai passando, e o sol vai fugindo e nós sem conseguirmos encontrar o "tal" local. Acabamos por escolher, já fartos de procurar, um arbusto seco e velho onde estendemos a toalha aos quadrados azul.
Todos torcem o nariz com a escolha feita, todos revelam um certo arrependimento por não ter sido escolhida "aquela" duna que ficava entre um vale de dunas, onde todos ficavam abrigados do vento e onde os miúdos podiam brincar sem incomodarem ninguém com os papagaios de papel.
Mas a escolha estava feita, e a toalha estava posta com todos os manjares que tinham sido preparados.
Depois de tanta procura, e de tanto arrependimento era chegada a hora de saborear o doce da dona Bia, e o queijo da serra do senhor Zé, o chouriço do tio Luís, que por breves momentos nos fez esquecer o sitio onde estávamos, e nós deixou imaginar que estávamos realmente felizes por estar ali mesmo não sendo o local perfeito.
De regresso a casa, passando pelas árvores, arbustos e dunas rejeitadas os olhares eram de arrependimento e o que mais se ouvia da boca de todos era "...é pena não termos conseguido ver para além daquele arbusto...".

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Função pública vs Argumentistas

por Clementine Tangerina, em 06.03.05


Recentemente apercebi-me que o facto de não sair de casa, não picar o ponto das 9.00 as 17.00h, significa que não trabalho. Comecei a pensar para mim mesma que profissões como Artistas Plásticos, realizadores, escritores,guionistas...são profissões classificadas aos olhos de muitos, como sendo "..profissões confortáveis..." já que pelo que ouvi da boca de alguns... "..não tem que sair de casa, não tem o patrão atrás de vocês a examinar o que produzem diariamente, não tem que picar o ponto, não estão limitados na hora de almoço e não tem objectivos a atingir.... No fim de ouvir isto e muito mais, tive que pedir ao "Motorista" que me deixasse respirar fundo para então depois lhe responder com toda a calma do mundo, "...pois não temos que picar o ponto, não temos o patrão atrás de nós, nem hora de almoço controlada, MAS TEMOS um problema maior que isso tudo, estamos dependentes da chamada INSPIRAÇÃO para escrever, estamos limitados a um deadline que muitas vezes é mesmo curto, e estamos dependentes muitas vezes dos apetites da pessoa que nos paga para nós criarmos um bom programa, ou um bom argumento. Acha isso pouco stressante?talvez seja, para os ditos "génios" que em Portugal são poucos aqueles que se sentam ao computador e em 1 hora conseguem escrever mais que uma página de guião...considera isso um bom trabalho? Se tivermos em conta que um guião pode ter mais de 20 paginas e que cada página demora mais de 1 hora a escrever, e que em média demoramos vários dias a encontrar a "tal" ideia para passar para o papel...pois sem dúvida alguma que o nosso trabalho é muito menos cansativo que o vosso."
Sem dúvida alguma que as profissões são diferentes, e que há trabalhos muito mais "puxados" do que os outros, mas também temos que deixar de criar o mito de que quem fica em casa tem uma vida muito menos stressante do que aquele que é funcionário publico.
Não estou a querer "defender a minha classe trabalhadora" pois não estouassim tão à vontade para falar dela, quanto isso, mas tenho-me apercebido das injustiças que existem.
Muitas vezes, os que me são próximos ouviram dizer-me em épocas que a saturação de procurar trabalho naquilo que gosto, quase se torna desesperador, que preferia ter sonhado em ser administrativa ou comerciante..não digo isto em tom de ironia, mas sim no aspecto que teria a vida mais facilitada, e os meus sonhos seria mais realizáveis dos que eu tenho agora. Como argumentista estarei sempre limitada ao programas que possam existir, e aos apoios que o ICAM possam vir a dar, estarei limitada ao orçamento que o programa poderá ter para a equipa de guionistas e o tempo que toda essa equipa tem para "criar" um programa. Se pensarmos que como administrativa, "o meu único" problema seria chegar a horas, cumprir o horário, tentar não faltar e na hora de sair, estar pronta, e não tinha que me preocupar com o levar trabalho para casa e não acordar durante a noite stressada com a falta de inspiração...diria que sim, a minha vida estaria bem mais facilitada.

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