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Um mês...

por Clementine Tangerina, em 01.07.09


Não tinha certeza de querer lá ficar o mês inteiro de férias. Tinha arrumado a mala com o essencial, bikini, toalha de praia, alguns calções frescos e alguns tops. Não tinha levado roupa formal, porque sabia que por ali toda a gente andava praticamente descalça. Desde o senhor do peixe até ao médico, todos usavam um vestuário leve e descontraído. Por ali não existiam formalismo.
Ficou hospedada numa casa de campo que estava anunciada para alugar num site da net. Não se quis preocupar mais, queria passar o mês sozinha, longe de casa e da cidade. Precisava a toda a força recarregar baterias e fazer nas férias o que não fazia durante o resto do ano. Ir à praça, comprar peixe fresco acabado de chegar da lota, comprar pão fresco na padaria, e tomar um banho no mar logo pela manhã depois da sua corrida matinal.

Ao lado da casa que tinha alugado existiam duas outras, não estavam em tão bom estado como a sua, mas eram igualmente bonitas e tinham uma vista privilegiada para a praia. Naqueles nove dias que já ali estava não tinha visto muita gente. Mas sabia que numa delas existiam pessoas pois ao final do dia ouvia sempre música vinda de uma das varandas, e ouvia vozes. Mas até então nunca tinha visto ninguém.
A noite estava quente, e havia no ar um vento quente, mas agradável. Preparou o seu jantar, salmão grelhado com legumes salteados. Abriu uma garrafa de vinho branco Altano que era um dos seus preferidos, e preparou a mesa na varanda. No fundo da sala colocou um cd que nunca tinha ouvido, mas que lhe tinha sido oferecido antes de vir de férias, por uma amiga. Era uma mistura de bossa nova com musicas portuguesas. Ficou encantada.
Antes de se sentar à mesa, foi buscar o seu livro de notas e a sua caneta preferida. Sentou-se à mesa e entre uma garfada e um gole de vinho, ia rabiscando no seu livro alguns pensamentos que tinha tido durante o dia. Já era um ritual para ela chegar ao final do dia e escrever o que tinha feito, queria registar no seu "diário de bordo" aqueles dias.
Quando se preparava para ir buscar uma taça de cerejas frescas foi surpreendida com a sombra de alguém dentro da sala. Ficou nervosa, e apresou-se a agarrar na faca que tinha em cima da mesa.

- Quem está ai ? - Questionou ela revelando algum medo na voz.
- Calma...posso entrar ? - Perguntou a tal sombra
- Vá para uma zona com luz....quem é você ? - Continuava a perguntar nervosa

Já numa zona iluminada e junto ao sofá da sala surgiu um verdadeiro Deus grego que imediatamente se apressou a explicar-lhe porque estava ali.
-Peço desculpa se a assustei mas não era realmente a minha intenção. Moro aqui ao lado e como vi luz decidi vir para lhe perguntar se me podia ceder coentros frescos ?

- Mas o senhor conhece-me de algum lado para me vir pedir seja lá o que for ?
-Ah desculpe, mas por aqui toda a gente pede aos vizinhos aquilo que não tem em casa e precisa...desculpe mas pensei que não existisse problema quanto a isso.

Depois de ter ficado um pouco a pensar nas palavras do Deus grego, e de ter ficado hipnotizada com os seus olhos verdes, acabou por ser chamada a razão com as palavras dele.

-Não, eu é que peço desculpa mas não estava a contar com visitas, estava tão concentrada que me assustei. Desculpe mais uma vez, a minha agressividade...chamo-me Leonor e estou aqui de férias.

- Muito prazer Leonor, chamo-me Raul e como já lhe disse sou seu vizinho aqui do lado!
- Mas mora aqui o ano todo ? - Perguntou Leonor curiosa!
- Não, só venho cá nas férias, comprei esta casa há cerca de dois anos e estou viciado neste local, sempre que posso fujo da cidade para vir para aqui e para me desligar do mundo!
- Já somos dois então...também vim fugida do mundo à procura de alguma paz, pelo menos por um mês!
- Ahhh vai ficar então mais alguns dias ?
- Não sei, não me decidi...aluguei por um mês, mas não sei ao certo se aguento tanto tempo por aqui.
- É claro que aguenta...vai ficar com pena quando for para partir...acredite em mim.
- Ainda pretende os coentros?
- Sim, por favor...se tiver!
-Eu acho que ainda tenho ali alguma coisa, vou ver!

Leonor deixou Raul na sala enquanto foi até à cozinha procurar os coentros e poucos segundos depois já estava de volta.
- Está com sorte, ainda tenho alguns.
- Ohhh Obrigado...salvou o meu jantar! Adoro coentros e esqueci-me completamente de os comprar hoje no mercado.
- Esteja à vontade, se precisar de mais alguma coisa diga.
- Bem é melhor ir andando antes que o arroz seque demais.
-Bom apetite então.
-Obrigado Leonor, e desculpe mais uma vez pelo susto.
- Sem problema...sou uma medricas, assusto-me com muita facilidade.

Leonor acompanhou-o à porta e despediu-se sorridente, Raul foi a correr para casa na tentativa de salvar o arroz que tinha deixado ao lume.
Depois de Raul sair, foi então à cozinha buscar as cerejas e sentou-se na varanda, a olhar para a janela da sala do seu vizinho. Conseguia ver o vulto dele a passar. Por segundos achou que ele estava a espreitar pela janela em direcção a ela. Mas como era de noite não conseguia ter certeza, a sua falta de vista, também não ajudava.
Acabou as cerejas, levou os pratos para a cozinha, mudou de CD e regressou para a varanda para continuar a escrever.

Quando regressou olhou mais uma vez para a varanda do vizinho e reparou que este se encontrava a jantar na varanda, estavam acessas algumas velas e estava a olhar para o mar.
Estranhou o facto de este estar sozinho, « ...um homem tão engraçado, sozinho?! uhm ou está a divorciar-se ou então é gay...só pode! ».
A noite começou a esfriar e do braço do sofá da sala puxou o casaco de malha que ali estava. Quando regressou, Raul já tinha saído, as luzes de casa já se tinham apagado. « Deve ter saido...»!

Na manhã seguinte, acordou cedo como era seu habito, vestiu uns calções e uma t-shirt e rumou para a praia para dar a sua corrida matinal.
Fez o aquecimento junto à agua e foi surpreendida com uma voz ao seu lado.
- Bom dia atleta....quer companhia para a corrida ?
- Olá Raul como está ? Não sabia que também corria! Nunca o vi por aqui a correr!
- Antes de mais deixe o "você" de lado e trate-me por tu...Costumo ir para o outro lado da praia, mas vi-a da janela e decidi acompanha-la!
- Então vamos deixar-nos de conversas e formalismos e vamos lá correr!
- Sim senhora, irei ao seu ritmo!

Correram cerca de uma hora, sempre sem parar. Leonor não gostava muito de falar enquanto corria, por isso praticamente não falou com Raul, mas já não se podia dizer dos olhares que ambos trocaram durante a corrida...já que não podiam falar...olhavam e admiravam a forma física com que os dois se encontravam.
Fizeram os alongamentos, e pararam à porta da casa de Raul.
- Queres entrar para beber alguma coisa ? - Perguntou ele.
- Não...estou muito mal cheirosa...quero é ir tomar um banho fresco e quero ir ainda ao mercado para comprar peixe fresco para o almoço. - Apressou-se Leonor a responder.
- Ahh também vou ao mercado já de seguida...queres companhia ?
- Porque não ? Já conheces melhor o mercado do que eu, de certeza que me vai ser útil ir com um guia! - respondeu Leonor em tom de piada.
- Então está combinado, daqui a meia hora consegues estar pronta ? - questionou Raul.
- É claro que sim, é só tomar um duche e vestir algo e vamos! Toco em tua casa, pode ser ?
- Está combinado, até já!
(...)

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De Penguin a 01.07.2009 às 21:43

e o resto da história?

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